Caras-pintadas X Caras-pintadas.com

11 de agosto de 1992: 10 mil jovens reúnem-se em frente ao MASP, em São Paulo, para protestar contra corrupção do governo Collor. Foi o primeiro ato do movimento que ficou conhecido como os Caras-Pintadas.

7 de setembro de 2011: 700 pessoas comparecem ao MASP em um ato contra a corrupção, enquanto por volta de 12 mil pessoas reúnem-se para a Marcha contra a Corrupção, na esplanada dos ministérios em Brasília.

Voltando a 1992: dia 14 de agosto o Presidente Collor, em um pronunciamento televisado, convoca os brasileiros a usar verde-amarelo no domingo, dia 16 do mesmo mês. O tiro sai pela culatra e milhares de jovens e adultos do Brasil inteiro saem às ruas de preto, em protesto contra a corrupção. Foi a explosão do movimento dos Caras-Pintadas. Algumas semanas depois 400 mil jovens tomaram o Anhangabaú em protesto.

Já em 20 de setembro de 2011: 2 mil pessoas marcham contra a corrupção na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em ato convocado via internet.

Além dos 19 anos que separam as duas datas, há um outro fato muito importante: a internet. E mais importante ainda, o fenômeno das redes sociais.

Em 92 não havia internet, consequentemente nem Facebook, Twitter, blogs e Orkut. Milhares saíram às ruas.

Em 2011, mesmo com as redes sociais bombando no Brasil, mobilizar a sociedade civil não está sendo fácil, apesar de no mundo virtual, milhares de pessoas confirmarem presença em diversos atos de protesto.

Por que?

Porque, como escrevi em um artigo em março deste ano, tuitar é fácil, fazer é que é difícil. É politicamente correto  e muito simples apoiar causas clicando no botão “Curtir”, colocar hashtags de protesto no Twitter, citar escritores famosos. Ir às ruas é bem diferente.

E não estou aqui para negar a influência das redes sociais, seria ingenuidade de minha parte. Até mesmo uma incoerência, já que sou grande entusiasta do Facebook e do Twitter. Mas precisamos relativizar a importância das coisas.

Os movimentos da sociedade civil existem desde sempre e não depende das redes sociais, ao contrário do que pregam “inovadores” e “especialistas”. As pessoas vão se mobilizar, se comunicar independente da plataforma existente naquele momento.

Mas uma coisa não muda nunca: se você não tem uma liderança forte, que represente um ideal comum, é impossível mobilizar as pessoas.

Bem ou mal, em 1992 você tinha a UNE e o carismático Lindberg Farias, que liderava o movimento estudantil.

Hoje? Hoje não há uma liderança constituída, até pela própria natureza das redes sociais, que primam pela descentralização. Some-se a isso o estado de letargia que o brasileiro vive frente os diversos atos de corrupção que assolam o país há anos. E, para completar, a descrença da sociedade na classe política: qual deles tem moral para liderar um movimento deste porte?

Quem são os blogs mais populares do Brasil? Kibe Loco, NãoSalvo, Sedentário Hiperativo, além de outros que existem apenas para fazer dinheiro via ofertas do Mercado Livre e links patrocinados. O conteúdo deles não é nem sombra do que foi um Pasquim, por exemplo.

Quem é o mais influente do Twitter? Rafinha Bastos. O que ele pode fazer para mobilizar a sociedade civil, além de contar piadas e tuitar por dinheiro?

Por que no Brasil não surge um Huffington Post? Que aliás, vai lançar uma versão em português, porque não conseguimos criar um veículo online que trate de política e economia com a mesma força do HP.

O fato é que, desculpe o trocadilho, a blogosfera e a “redesocialsfera” brasileira ainda são uma piada em termos de ativismo político. E, se depender exclusivamente delas, não veremos tão cedo um movimento como os de 1992.

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  1. #1 por Pedro em 22/09/2011 - 11:40

    Brilhante.

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